AUTO | Ford GT: Diabolicamente eficaz
- motores7magazine
- 9 de set. de 2017
- 5 min de leitura

O Ford GT não foi construído para se tornar num supercarro divertido, mas para ser tremendamente eficaz em pista. Essa é a maior diferença para os seus rivais, sensação que descobrimos na pista de testes da Michelin, em Ladoux, França.
Mike Rodman
Se a sua ideia é adquirir um Ford GT e andar com ele na estrada com desenvoltura, como o faria com um Ferrari, um Porsche ou um McLaren, tire isso da cabeça. Isto porque o supercarro americano é um genuíno carro de competição, concebido para chegar ao circuito de Le Mans e celebrar o quinquagésimo aniversário da primeira vitória da Ford na corrida mais famosa do mundo (1966).
Apresentado em 2015, diligentemente cumpriu a sua missão em 2016, chegando em primeiro lugar na classe Pro GTE (resultado que este ano quase repetiu nas famosas 24 Horas, terminando em segundo atrás do Aston Martin Vantage). A novidade é que agora também o podemos encontrar disponível com placa de matricula para uso em estrada .

Ford GT: o primeiro teste de estrada
No entanto, "disponível" é um conceito relativo. Por enquanto, a Itália vão chegar apenas três carros, estando prevista uma produção total de 250 unidades por ano, durante quatro anos.
Em todo o caso precisamos de ver se o número total de unidades será respeitado, algo que não sucedeu com o GT anterior (2004-2006), projetado para 4500 exemplares mas que foi pouco pouco além das 4000. No entanto, não deixa de ser curioso que no site www.Ford GT.com surge uma frase onde se pode ler: "Os pedidos de compra para o Ford GT estão fechados, obrigado." Isto sem contar que o preço – orientativo - do GT atual ronda os 550 mil euros, o que não significa que não cabe em muitos orçamentos.

De resto, a única característica realmente "civilizada" do novo GT é uma sonoridade quase urbana do motor, que mesmo na versão batizada Le Mans perfura menos os tímpanos do que a dos seus rivais diretos Corvette C7 e, claro, Aston Martin Vantage.
No interior do ‘diamante’ americano

Entrar no Ford GT através das portas de asa de gaivota requer alguma agilidade e achar a posição de condução apropriada dá algum trabalho, porque o assento é fixo (para manter invariável e abaixar o centro do carro de gravidade) podendo-se mover apenas o volante e os pedais. E até prender o cinto de segurança, com cinco pontos de fixação (uma obrigatoriedade num carro deste tipo) trona-se uma tarefa laboriosa.

Uma vez dentro do habitáculo, devemos ter cuidado para não tocar o teto com a cabeça, no entanto, a visibilidade para todos os lados é perfeita para um circuito, mas complicada para andar no trânsito ou mesmo para realizar uma manobra de estacionamento. Os controles elétricos concentram-se na sua maioria no volante "quadrado" num modo muito expressivo mas pouco intuitivo e a instrumentação digital, apesar de configurável, tem o mínimo indispensável sem se perder em iguarias estéticas.
E também o espaço para objetos pequenos ou grandes é inexistente (a capacidade de carga declarada demonstra um bom sentido de humor, é de 11,3 litros...) ainda que, tratando-se de um carro americano, não poderia faltar o suporte para um copo!
De resto o habitáculo, ainda que muito baixo, é também estreito e afunilado para interferir o menos possível com o fluxo de ar que melhora a aerodinâmica do GT. Aliás, basta dar uma olhadela de cima do carro (o que não é difícil, visto o GT mede pouco mais de um metro de altura) para percebermos toda a atenção e criatividade que os técnicos da Ford aplicaram neste conceito.

Existem de facto duas gigantescas tomadas laterais que projetam a ventilação do ar para a parte traseira do carro entre as luzes traseiras redondas. E existem ainda componentes ativos de aerodinâmica, uma vez que a enorme asa traseira muda a altura e a posição de acordo com as condições de condução, até uma inclinação pronunciada que a torna num travão aerodinâmico.
Ao seleccionar no painel o programa de condução "pista", as suspensões são reduzidas até 50 milímetros de altura - uma variação habitual em alguns veículos Off-road, passando de uma altura do chassis ao solo de 120 mm para 70 mm, uma elevação que não pode ser utilizada numa estrada normal e que causaria danos devastadores no spoiler e fundo plano.
Uma joia tecnológica com 656 cv!

Do ponto de vista técnico, o Ford GT tem vários aspectos interessantes. Para além da suspensão variável em altura, com amortecedores "on board" e um mecanismo bastante complexo para as conexões aos amortecedores e às barras de torção, existe um sistema que mantém altos os regimes dos dois turbocompressores mesmo quando não estamos a acelerar e a fonte de alimentação (dupla para cada cilindro, com um injector nos colectores e outro nas câmaras de combustão) está desligada, de modo a minimizar o atraso de resposta.
Devo ainda referir o inovador sistema de montagem da célula do habitáculo de carbono, dividida em vários elementos, o que permite uma maior flexibilidade construtiva e, em projeção, tornar mais utilizável o uso deste material na produção em grande série.

Quanto ao motor, para reduzir o peso, tamanho e otimizar o centro de gravidade, está numa posição posterior central longitudinal e não é um V8 como seria de esperar num carro americano (como era no GT de 2004). Trata-se de um V6 com 3497 cc de capacidade da família EcoBoost que, de acordo com a Ford, partilha 60% dos componentes com a versão de série montada na pick-up F150 Raptor.
A potência declarada "à americana” é de 647 cv, o que corresponde mais ou menos a 482 kW e 656 cv às 6250 rpm na nossa medida europeia, enquanto o binário anunciado é de 550 libras-kgm, correspondente a 746 Nm às 5900 rpm. Segundo dados oficiais, o GT é capaz de acelerar de 0 a 97 km/h em menos de 3 segundos (e a essa velocidade consegue parar em 27,7 metros graças aos discos de carbono-cerâmica da Brembo) e atinge os 347 km/h em velocidade máxima.

Em circuito: de suave para diabólico num ápice!

Dito tudo, afinal como se comporta realmente este supercarro?
Tivemos a ocasião de o experimentar em algumas, muito poucos voltas (4, hugh!) numa das muitas faixas de utilização do Centro de Testes da Michelin, em Ladoux, a poucos quilómetros de Clermont Ferrand, França. A razão para esta ‘joint-venture’ ocasional tem uma fácil explicação. A Ford está a empregar os pneus franceses em toda a sua gama desportiva de automóveis e, especificamente, o GT tem montados uns Pilot Sport Cup 2.
A primeira sensação incomum que tive foi uma ligeira sensação de vertigem quando, no modo "Track", o GT se precipita (esta é a palavra correcta, dada a velocidade com que o faz) 50 mm para baixo e se agacha ao solo.
Com o motor pouco audível no habitáculo, ficam percetíveis todos os ruídos da gravilha levantada pelos pneus e que vai bater no interior das cavas das rodas, porque a insonorização do habitáculo praticamente não existe. Mas, por outro lado, sendo de esperar um assento muito rígido no ‘cockpit’… o que não acontece porque, magicamente, as suspensões inteligentes praticamente anulam o ‘pitch and roll’, mantendo as tensões verticais em níveis perfeitamente suportáveis.

O motor é suave e encorpado em baixas rotações e fica muito poderoso, aparentemente sem qualquer esforço brusco no pedal, salvo quando recebemos um impulso violento ao ultrapassar as 5000 rpm, fase em que entra numa aceleração assustadora.
A caixa com dupla embraiagem e 7 velocidades, construída na Getrag, é fulminante mas não violenta, o que também se aplica à direção, servo-assistida hidraulicamente e que requer pouco esforço, no entanto, mostra uma precisão cirúrgica e é muito rápida, revelando-se muito bem sintonizada com as restantes calibrações do carro.
Pelo menos nesta nossa curta experiencia com o Ford GT, foi-nos possível por em pratica as nossas capacidades sem chegar a grandes doses de ansiedade, apesar do ar de preocupação do tutor da Ford que viajou ao nosso lado, no lugar do passageiro. E também não quero deixar de voz dizer o que ele me disse no final: "off the record", no final da realização deste teste em Ladoux, admitiu que o GT não foi construído para gerar divertimento, mas para ser diabolicamente eficaz. E o resultado confirma-o!




























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